A mesa do Reino

O Evangelho nos coloca diante de uma pergunta que queima o coração:

 

Que mesa nós estamos servindo? A mesa do sistema ou o banquete do Reino?

 

E, junto com essa pergunta, outra:

 

O que o Espírito Santo – Ruach HaKodesh, a Mãe divina da Trindade – quer fazer em nós e através de nós?

 

 

 

Jesus nos fala em Lucas 14:

 

“Quando você der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos.”

 

O cenário é um banquete na casa de um dos principais fariseus. Não é churrasco simples; é mesa de gente importante, mesa de status, mesa de poder. Gente disputando lugar, medindo quem é mais honrado, quem vale mais.

É a mesa do sistema.

 

E as nossas mesas, se a gente olhar com sinceridade, muitas vezes são um espelho dessa lógica:

 

  • convidamos quem pode retribuir;
  • sentamos com quem pode abrir portas;
  • nos aproximamos de quem “agrega” para a nossa imagem.

 

 

É o contrato social da reciprocidade: “eu te convido, você me convida; eu te ajudo, você me ajuda”. É assim que o mundo funciona – da política ao condomínio.

 

Só que esse sistema de reciprocidade não é neutro;

ele perpetua desigualdades, alimenta privilégios, mantém gente de fora.

No Brasil, ele tem cor, CEP e condição econômica (poder de compra):

é a lógica que sustenta o racismo estrutural, que vitima nossa população negra e pobre;

é a lógica que naturaliza chacinas nas periferias, que aceita como normal jovens negros tombando pela violência do Estado, especialmente nas favelas, nos becos, nas quebradas.

 

Esse sistema diz, na prática:

 

“Quem não tem como devolver, não entra.

Quem não tem como retribuir, não senta.

Se não rende lucro, não tem lugar.”

 

Esse é o banquete do sistema.

 

E é justamente no meio desse banquete que Jesus planta uma dinamite espiritual.

Ele olha para o anfitrião e diz:

 

“Quando deres um banquete, não chames teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos…

mas convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos.”

 

Jesus não está proibindo churrasco em família.

Ele está atacando a lógica da exclusividade, a lógica da mesa que só acolhe quem pode retribuir.

Jesus está dizendo:

 

“Se você quiser andar comigo, não pode organizar a vida pela lógica do sistema.

A sua mesa tem de ser outra. O seu banquete tem de ser outro.

O seu banquete tem de ser o banquete do Reino de Deus.”

 

 

 

E aí entra a pergunta:

 

Mas quem nos capacita para viver essa aparente loucura?

Quem nos dá condições de romper com esse sistema tão entranhado na nossa carne, na nossa cultura, na nossa história?

 

A resposta é: Ruach HaKodesh, o Espírito Santo.

 

Em hebraico, Ruach é um substantivo feminino.

A Tradição bíblica nos permite contemplar o Espírito Santo como a maternidade da Trindade, a Mãe divina.

 

Foi essa Mãe que pairava sobre as águas na criação, envolvendo o planeta e inoculando vida.

É essa Mãe que nos gera de novo a partir da fé que nos presenteia.

É essa Mãe que nos consola quando não temos palavras, que intercede por nós com gemidos inexprimíveis.

 

E depois da ressurreição de Cristo, essa Mãe divina não apenas paira sobre nós:

Ela passa a habitar em nós.

 

Nós, que fomos justificados pelo Trino Deus, nos tornamos templo da Ruach HaKodesh.

A Mãe divina mora dentro de nós.

Ela é a voz materna do Reino da Trindade dentro da nossa consciência, dentro da nossa história, dentro da nossa comunidade.

 

 

 

Então, pergunto de novo:

 

O que a Mãe divina está fazendo EM nós?

 

Ela está nos libertando da lógica doentia do sistema, de dentro para fora.

O sistema diz:

 

“Sirva quem pode te promover.

Aproxime-se de quem pode te levantar na escada social.

Proteja a sua posição e a posição dos seus.”

 

Mas a Ruach HaKodesh sussurra dentro de nós:

 

“Eu te servi primeiro, quando você não tinha nada para me oferecer.

Eu te amei quando você era pobre de espírito, aleijado pelo pecado, coxo no caminhar, cego para a verdade.

Eu te convidei para minha mesa, sabendo que você jamais poderia me recompensar.

Agora, vá e faça o mesmo.

Sirva aos que não podem te retribuir.”

 

Ela nos convence de que status, poder e privilégio racial são lixo.

Nos mostra que, em Cristo, já fomos justificados.

Se Deus nos declarou justos em Cristo, nós não precisamos da aprovação do sistema.

 

Quando o mundo celebra alguém com fortuna de um trilhão de dólares,

A Ruach HaKodesh sussurra:

 

“Isso é lixo.”

 

E muita gente, inclusive cristã, ora para ser igual –

sem perguntar: quanto de exclusão isso custa?

Quantos serão jogados no limbo da miséria

para que uns poucos acumulem tanto?

 

A Mãe divina nos pergunta:

 

“Você quer mesmo participar de um sistema que transforma seres humanos em peça de reposição?

Que substitui vidas como se repusesse mercadoria em prateleira?”

Ela nos liberta dessa ilusão.

 

Mas não é só em nós.

 

O que a Mãe divina quer fazer ATRAVÉS de nós?

 

No Brasil, há muito convivemos com essa realidade de segregação e injustiça, a Ruach HaKodesh chora dentro dessa nossa história.

 

Ela clama por todos os oprimidos.

Ela chora pelos filhos negros assassinados nas operações policiais.

Ela geme com as mães das favelas, das periferias, das quebradas, que enterram seus meninos.

Ela sente a dor das mulheres negras que carregam séculos de desprezo, violência e empobrecimento.

Ela sofre por causa da misoginia, do feminicídio.

 

Porque Ela habita em nós,

o choro dela quer se tornar o nosso choro.

A indignação dela quer se tornar a nossa ação.

 

Ela nos lembra que a misoginia e o racismo estrutural não podem ser tidos como “opinião política”;

é pecado estrutural.

É sistema de morte.

É parte daquele ídolo que Daniel viu no sonho de Nabucodonosor:

uma estátua feita de vários metais, representando os impérios humanos – todos baseados em poder, dominação e exclusão.

 

Mas Daniel viu também uma pedra, lançada por mãos não humanas, que atinge os pés da estátua, derruba toda a estrutura e vai crescendo até encher a terra.

Essa pedra é o Reino de Deus.

É o Reino que vem para triturar o sistema de morte, de misoginia, de racismo, de opressão, de exploração econômica.

 

 

 

E Jesus diz como esse Reino se manifesta na prática:

 

“Ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos.”

 

Na nossa realidade brasileira, quem são esses convidados?

 

  • a população negra e pobre, alvo preferencial da violência policial;
  • as mulheres que criam filhos sozinhas;
  • os imigrantes e refugiados;
  • os dependentes químicos;
  • os ex-presidiários;
  • os injustiçados pelo sistema;
  • todos aqueles que o sistema empurrou para o corredor estreito da marginalidade.

 

 

Esse não é um chamado à caridade distante, do tipo “entrega uma marmita e sai correndo”.

Jesus não diz: “leve comida até eles e volte para o seu conforto.”

Ele diz:

 

“Convida para o banquete.”

 

É mesa.

É relacionamento.

É honra para quem foi desonrado.

É voz para quem foi silenciado.

É comunhão para quem foi isolado.

 

E às vezes a gente ouve isso e pensa:

“Bonito, né? Espiritual. Mas na prática… quem é que aguenta viver isso?”

 

Eu lembro daquela irmã simples, no Rio de Janeiro, que a Ruach HaKodesh moveu para acolher pessoas em situação de rua.

Ela colocou vinte pessoas morando dentro da própria casa.

Era o que cabia no espaço que ela tinha.

 

Quando alguns pastores se reuniram com ela, em vez de perguntar “Como podemos ajudar?”, muitos perguntaram:

 

“A senhora não tem medo?

A senhora pensou na segurança da sua família?”

 

E ela respondia:

 

“A gente ora.

Ora às seis, às nove, ao meio-dia, às três, às seis da tarde, às nove da noite…

e o Senhor tem sustentado.”

 

Alguém comentou:

 

“Mas tem gente que é folgada, que se aproveita…”

 

E ela respondeu:

 

“Quando percebo isso, eu começo o turno da meia-noite.”

 

Não é romantismo.

É banquete do Reino acontecendo numa casa humilde.

É a Mãe divina capacitando alguém a fazer o que, humanamente, parece impossível.

 

 

 

Esse é o ponto:

sozinho, ninguém vive o banquete do Reino.

Mas a Ruach HaKodesh habita em nós.

Ela é a Mãe em nosso interior, que diz:

 

“Lembra? A Trindade convidou você quando você era pobre de espírito, aleijado pelo pecado, coxo, cego.

A sua salvação é um dom irrecompensável.

Você nunca poderá pagar o que recebeu.

Então, imita o ETERNO:

dá, doa, acolhe, sem esperar retribuição.”

 

Essa é a economia invertida do céu.

É investir naquilo que a traça não corrói e o ladrão não rouba.

É juntar tesouros no céu, não aqui.

 

Jesus diz:

 

“e serás bem-aventurado,

porque eles não têm com que te recompensar;

mas recompensado te será na ressurreição dos justos.”

 

Ou seja:

 

  • a recompensa não é agora;
  • não são likes, aplausos, elogios, fotinho no Instagram com legenda “servindo a Deus”;
  • a recompensa é escatológica – “na ressurreição dos justos”.

 

 

Quem são os justos?

Não é “o pessoal certinho”.

São os que Deus declarou justos,

porque foram escondidos em Cristo,

justificados por divina graça.

 

A cruz, diz Pedro, é manifestação de um sacrifício decidido antes da fundação do mundo.

O sacrifício começa quando o Filho abre mão das prerrogativas divinas:

 

  • o Eterno se deixa circunscrever ao tempo;
  • o Infinito assume limites;
  • o Imortal se oferece à morte;
  • o Onisciente escolhe dizer: “Não sei” – e ora de verdade, chora de verdade, sofre de verdade.

 

Quando chegamos ao Calvário, estamos vendo o ápice de um sacrifício que começou muito antes.

E Paulo nos diz:

 

“Tenham em vocês o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus…”

 

O que é esse “mesmo sentimento”?

É a disposição de abrir mão de privilégios para servir.

Isso é banquete do Reino.

 

Então, a pergunta volta com força:

 

Que mesa nós vamos servir?

A mesa exclusiva do fariseu ou a mesa inclusiva do Reino?

 

Vamos continuar lutando para que o Brasil seja “uma grande potência”, não importa o custo?

Ou vamos lutar para que o Brasil seja um farol de justiça,

um povo que aprendeu a lição de Paulo:

 

“Quem colheu muito não acumule, para que quem colheu pouco não passe necessidade.”

 

O mundo não precisa de mais potências;

o mundo precisa de justiça.

 

Irmãs e irmãos,

nós celebramos a Ceia do Senhor como uma prévia do grande banquete do Cordeiro,

onde gente de toda tribo, língua, povo e nação se assentará à mesa,

e a justiça de Deus cobrirá a terra como as águas cobrem o mar.

 

Mas preste atenção:

essa mesa não é a mesa de quem é servido;

é a mesa de quem serve.

 

Se não estivermos dispostos a seguir Jesus nessa economia invertida,

nessa lógica da doação sem retorno,

então não estamos entendendo a mesa dele.

 

Por isso, hoje, diante desse texto e dessa realidade brasileira, eu quero orar com você:

 

Pai de amor e de justiça,

perdoa-nos quando as nossas mesas se pareceram mais com a mesa do fariseu do que com o banquete do Reino.

Perdoa nosso exclusivismo, nosso medo, nossa busca por relevância, por poder, por segurança.

Quebra em nós a lógica da reciprocidade que exclui.

Ruach HaKodesh, Mãe divina, plenifica-nos.

Liberta-nos do fascínio pelo status, pelo privilégio racial, pelo poder que mata.

Transforma o teu choro em nossa ação.

Dá-nos coragem para abrir a vida, a casa, a comunidade para os excluídos – negros, pobres, imigrantes, mães solo, dependentes químicos, ex-presidiários, injustiçados.

Que a esperança da ressurreição nos liberte do medo de perder privilégios e segurança.

Faz de nós sinais vivos de que o Reino de Deus já está entre nós.

Em nome de Jesus, o Cristo, o anfitrião que se fez servo, Amém.

 

E agora, irmãos e irmãs,

à luz desse chamado, nós separamos o pão do seu uso comum,

para que ele tipifique o corpo de Cristo –

corpo moído desde o momento em que Ele abriu mão da sua glória por nós.

 

Separamos também o fruto da vide do seu uso comum,

para que ele tipifique o sangue da nova aliança –

conhecido antes da fundação do mundo e manifestado na história por amor de nós.

 

Todos aqueles e aquelas que desejam aliar-se a Cristo

na construção de uma nova mesa –

uma mesa que rompe com a lógica do sistema

e encarna o banquete do Reino –

são convidados a participar:

a comer do pão e a beber do cálice.

 

Que ao nos aproximarmos desta mesa,

a Ruach HaKodesh nos lembre:

 

“Vocês foram servidos quando nada tinham a oferecer.

Agora, vão e sirvam, sem esperar recompensa aqui.

A verdadeira recompensa está guardada

na economia invertida do céu,

na ressurreição dos justos.”

 

Amém. Sejamos todos bem-vindos à mesa do Senhor.

 

Ariovaldo Ramos 


Amor

O Homem que Apostou a Vida

“Recebei-o, pois, no Senhor, com toda a alegria, e honrai sempre a homens como esse.” — Filipenses 2:29
I. O grito nas ruas da Grécia

Deixe-me começar por um lugar improvável: uma mesa de jogo.

Imagine uma taberna qualquer do mundo grego, há dois mil anos. Homens reunidos em volta de uma mesa, o cheiro de vinho barato no ar, moedas empilhadas, e no centro de tudo — os dados. Um homem sacode os dados na mão fechada, fecha os olhos, e antes de lançá-los sobre a mesa, grita uma palavra. Uma só palavra, gritada como quem invoca a sorte:

— Epaphroditos!

“Favorito de Afrodite.” Era isso que a palavra queria dizer. Afrodite, a deusa do amor e — acreditavam eles — da fortuna. Gritar aquele nome era pedir que a deusa sorrisse para os dados, que a sorte caísse do lado certo, que o acaso fosse generoso.

Guarde essa cena. Guarde esse grito. Porque esta história é sobre um homem que carregava exatamente esse nome — Epafrodito — e que um dia descobriu que a vida não se joga nos dados de nenhuma deusa. Descobriu que existe algo maior do que a sorte. E quando fez a sua grande aposta — porque ele fez uma, e foi a maior de todas — não foi Afrodite quem ele invocou.

Mas não corramos. Toda boa história pede o seu tempo.

II. Uma cidade chamada Filipos

Havia uma cidade na Macedônia chamada Filipos. Cidade orgulhosa, colônia romana, cheia de veteranos do exército, gente que se vestia de Roma mesmo estando longe de Roma. Foi ali que, anos antes, um homem chamado Paulo desembarcou trazendo uma notícia que ninguém na Europa tinha ouvido ainda: a notícia de que Deus, em Cristo, tinha visitado o mundo.

A primeira igreja da Europa nasceu ali. Nasceu à beira de um rio, com uma comerciante de púrpura chamada Lídia; com uma menina liberta da escravidão; nasceu numa prisão, com um carcereiro que lavou as feridas dos presos que ele mesmo vigiava. Nasceu pequena, improvável — e apaixonada.

Porque a igreja de Filipos amava Paulo. Não era um amor de cerimônia, desses que se declaram de longe. Era amor que abria a bolsa, que reunia oferta, que perguntava: “Do que ele precisa? Como chegamos até ele?” Quando todas as outras igrejas se calaram, Filipos falou. Quando ninguém mais enviou nada, Filipos enviou.

E um dia, chegou a Filipos uma notícia que atravessou a comunidade como uma lança:

Paulo está preso. Em Roma. Aguardando julgamento diante do imperador.

Vocês conseguem imaginar aquele domingo? A congregação reunida, e alguém lendo uma carta, ou repetindo o que o viajante contou. O silêncio. As mãos apertadas. Paulo — o homem que os gerou na fé — acorrentado a um soldado romano, esperando saber se viveria ou morreria.

E então, no meio daquele silêncio, a igreja fez o que a igreja de Filipos sabia fazer: agiu. Levantou-se uma oferta. Dinheiro para sustentar Paulo na prisão, porque naquele tempo o preso comia se alguém de fora o alimentasse; vestia-se se alguém de fora o vestisse. Daí a extensão da fala de Cristo, frente ao juízo das nações: estive preso e foste ver-me.

Mas dinheiro não anda sozinho. Alguém precisava levá-lo. Alguém precisava atravessar mais de mil e duzentos quilômetros — a pé pelo caminho que seria a Via Egnácia, de navio pelo Adriático, de novo a pé pela via Ápia, a Regina Viarum da Itália — carregando uma quantia que faria brilhar os olhos de qualquer assaltante de estrada. Alguém precisava entrar numa prisão romana, associar o próprio nome ao nome de um réu do império, e ficar.

A igreja olhou em volta. E um homem se levantou.

O nome dele? Epafrodito.

O homem com nome de deusa pagã. O homem cujo nome era um grito de jogador. Esse homem, alcançado por Cristo, por sua graça, transformado pelo evangelho, levantou-se e disse: eu vou.

E aqui está a primeira coisa que eu quero que vocês guardem desta história: Epafrodito entendeu algo que todo cristão deve entender. Ele entendeu que a vida em Cristo é assumir a missão. Ele não disse: “eu levo a oferta”. Ele disse mais do que isso, mesmo sem falar. Ele não entregou apenas um pacote. Ele entregou a si mesmo.

III. A estrada e a prisão

Não sabemos os detalhes da viagem, mas conhecemos as estradas daquele tempo. Sol que rachava a pele. Chuva que apodrecia as sandálias. Hospedarias imundas. O medo constante dos ladrões. Semanas — talvez mais de um mês — de caminhada e navegação.

E então, Roma. A maior cidade do mundo. Um formigueiro de um milhão de pessoas, e em algum canto dela, uma casa alugada onde um prisioneiro judeu escrevia cartas com uma corrente no pulso.

Imagine o encontro. A porta se abre. Paulo levanta os olhos. E ali está um rosto de Filipos — um pedaço da sua igreja amada, de carne e osso, atravessou o mundo para chegar até ele. Nas mãos, a oferta. Mas nos olhos, algo maior: nós não esquecemos de você.

Epafrodito entregou o dinheiro. E depois fez o que ninguém o obrigava a fazer: ficou.

Ficou para servir. Ficou para ser as mãos livres de um homem acorrentado. Ficou para buscar comida, levar recados, copiar cartas, cuidar. O plano — tudo indica — era esse: Epafrodito permaneceria com Paulo até o fim do julgamento, e então voltaria para casa trazendo notícias do desfecho.

Era um bom plano. Um plano piedoso, generoso, aprovado pela igreja, nascido do amor.

E foi exatamente esse plano que foi interrompido pela realidade da manifestação da morte que todos carregamos.

IV. Quando a doença entra na história

Porque em algum momento — não sabemos quando, não sabemos como — Epafrodito adoeceu.

Não foi um resfriado. Não foi uma febre de dois dias. O texto sagrado usa palavras pesadas: ele chegou quase à morte. Às portas da morte. O corpo daquele homem forte, que tinha atravessado mar e montanha, foi se apagando numa cidade estrangeira, longe da mãe, longe dos irmãos, longe de tudo que era casa.

E eu preciso parar a história aqui, porque aqui mora uma das verdades mais importantes de toda esta narrativa. Uma verdade que a igreja de todos os tempos precisa ouvir de novo e de novo:

As vicissitudes da vida também alcançam os missionários.

Pensem comigo. Onde estava Epafrodito quando adoeceu? Fugindo de Deus? Vivendo em pecado? Não. Ele estava no centro exato da vontade de Deus. Estava servindo o maior apóstolo da igreja. Estava fazendo a coisa mais bonita que um cristão pode fazer: gastando a vida pelos outros. E foi ali, exatamente ali, que a doença o encontrou.

Ninguém veio dizer a ele: “irmão, se você adoeceu é porque falta fé”. Ninguém veio procurar o pecado oculto. Paulo — que tinha o dom de curar, que já tinha visto Deus operar prodígios pelas suas mãos — não estala os dedos para resolver o problema. O texto simplesmente reconhece: ele adoeceu. Gravemente. Porque tinha um corpo frágil, como o seu e o meu, exposto ao rigor da viagem, ao ambiente de uma prisão, ao desgaste do serviço.

Estar na missão não é um seguro contra a tragédia. Servir a Deus não constrói um muro entre nós e a dor. A chuva cai sobre justos e injustos, e a febre também.

E os planos? Os planos tão bem feitos — ficar até o julgamento, voltar com notícias — os planos se desfizeram como papel na água. A doença interrompeu tudo.

Quantos de nós sabemos o que é isso? Fazer o plano certo, pelo motivo certo, com o coração certo — e ver tudo interrompido por algo que não escolhemos e não controlamos. A igreja de Filipos, do outro lado do mar, aguardava um desfecho. Recebeu outro. E aquilo causou estranheza, causou ansiedade. Como assim, o nosso enviado está morrendo? Como assim, nada saiu como esperávamos?

Irmãos: às vezes a providência de Deus escreve por linhas que nos parecem tortas. E a fé madura não é a que exige que os planos se cumpram — é a que confia no Deus que permanece quando os planos caem.

V. A dupla angústia

E aqui a história ganha uma delicadeza que me comove todas as vezes.

A notícia da doença viajou. Chegou a Filipos: “Epafrodito está morrendo em Roma”. E a igreja se angustiou — claro que se angustiou. Choraram por ele nas casas, nas orações, nas reuniões.

Mas então aconteceu algo curioso. A notícia da angústia deles fez o caminho de volta. E quando Epafrodito soube que a igreja sabia — quando soube que a sua mãe, os seus irmãos, a sua comunidade estavam sofrendo por causa dele — sabem o que ele sentiu?

Não foi alívio por ser lembrado. Foi angústia. O texto diz que ele ficou profundamente angustiado porque eles souberam que ele adoecera.

Prestem atenção nesse coração. O homem está às portas da morte, e a dor que mais lhe pesa não é a dele — é a dos outros. Ele sofre porque os outros sofrem por ele. Isso é o avesso do egoísmo. Isso é um coração que o evangelho virou pelo avesso, que já não consegue se colocar no centro nem da própria doença.

E Deus, na sua misericórdia — a Escritura usa exatamente essa palavra, misericórdia — teve compaixão dele. E o curou. Não por mérito, não por técnica, não por barganha: por misericórdia. E Paulo, ao contar isso, deixa escapar a sua própria humanidade: Deus teve misericórdia dele, diz o apóstolo, e também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.

Tristeza sobre tristeza. Paulo, o gigante, admite: se esse rapaz tivesse morrido nos meus braços, dentro desta prisão, eu teria afundado. Camada sobre camada de dor. Até os apóstolos têm um limite, e Deus conhece o limite dos seus servos.

VI. A decisão e a carta

Epafrodito se recuperou. E então Paulo tomou uma decisão que, aos olhos do mundo, poderia parecer estranha: mandá-lo de volta.

O plano original dizia: fique até o fim. Mas Paulo olhou para aquele homem restaurado e saudoso, olhou para uma igreja ansiosa do outro lado do mar, e entendeu que o amor pedia outra coisa. “Vou enviá-lo com mais urgência”, escreve ele, “para que, vendo-o de novo, vocês se alegrem, e eu tenha menos tristeza.”

E Paulo fez mais: colocou nas mãos de Epafrodito a própria carta. A Epístola aos Filipenses — essa que a igreja lê há dois mil anos, essa que contém o hino mais sublime já escrito sobre Cristo — atravessou o mar nas mãos de um homem que tinha acabado de voltar das portas da morte.

Mas Paulo conhecia o coração humano. E sabia de um perigo.

Ele sabia que, quando Epafrodito descesse do navio e caminhasse pelas ruas de Filipos, haveria olhares. E atrás dos olhares, murmúrios. “Não era para ele ter ficado até o fim?” “Voltou antes da hora.” “Será que não aguentou?” “Nós o enviamos para uma missão, e a missão foi interrompida…”

O mundo mede as pessoas pelos resultados. E pelos critérios do mundo, Epafrodito voltava com a missão pela metade. Paulo antecipou tudo isso. E foi para desarmar esse veneno antes que ele se instalasse que o apóstolo escreveu a frase que é o coração desta história:

“Recebei-o, pois, no Senhor, com toda a alegria, e honrai sempre a homens como esse.”

VII. Duas ordens

Vejam que Paulo não faz uma sugestão. Não diz “seria bom se…”. Ele dá ordens. Duas.

A primeira: recebei-o. E a palavra que ele escolhe no grego é uma palavra de braços abertos — prosdéchesthe — que carrega a ideia de receber alguém para junto de si, deliberadamente, para dentro. Não é abrir a porta e deixar entrar. É sair ao encontro. É acolher para dentro da comunhão, para dentro do coração. E o tempo do verbo pede uma ação contínua: não um abraço no dia da chegada e frieza depois, mas um acolhimento que permanece.

E Paulo diz onde esse acolhimento acontece: no Senhor. Não recebam Epafrodito apenas porque é amigo de vocês, filho da terra, rosto conhecido. Recebam-no no Senhor — no terreno da graça, onde ninguém é medido por desempenho, onde o valor de um homem não se calcula pelo cumprimento de um cronograma. No Senhor, um plano interrompido não é um fracasso; é providência.

E como? Com toda a alegria. Alegria — a palavra que perfuma a carta inteira aos Filipenses, escrita, notem bem, de dentro de uma prisão. Paulo, acorrentado, ordena alegria. Porque a alegria cristã não é o humor de quem teve um dia bom; é a resposta da fé à providência de Deus. O mensageiro quase morreu — e vive! Os planos caíram — mas Deus não caiu. Recebam-no com toda a alegria.

A segunda ordem: honrai sempre a homens como esse. Tenham-nos por preciosos, por valiosos, por dignos de honra — e de novo o verbo pede continuidade: honrem sempre. Não um aplauso na chegada, mas uma estima que dura.

E Paulo explica por quê. E a explicação é a joia escondida desta história.

VIII. A aposta

“Porque”, escreve Paulo, “por causa da obra de Cristo ele chegou às portas da morte, arriscando a própria vida para suprir o que faltava no serviço de vocês para comigo.”

Arriscando a própria vida. No grego, Paulo usa uma palavra raríssima — parabouleusámenos — e aqui a história fecha o seu círculo de um modo que só a providência de Deus poderia desenhar. Porque essa palavra vem do mundo do jogo. É palavra de apostador. Significa lançar tudo na mesa. Apostar. Jogar os dados sabendo que se pode perder tudo.

Vocês se lembram de onde começamos? Da taberna, dos dados, do grito — Epaphroditos! — o favorito de Afrodite, o nome que os jogadores invocavam pedindo sorte?

Pois Paulo, com um sorriso que quase conseguimos ver através dos séculos, pega o nome do homem e o devolve transformado. Como se dissesse: este homem, que carrega o nome dos jogadores, fez a maior aposta da sua vida. Ele apostou a própria vida. Mas não a apostou nos dados de Afrodite. Não a apostou na sorte, no acaso, na fortuna cega.

Ele apostou a vida na obra de Cristo.

E quem aposta a vida na obra de Cristo não perde jamais — porque mesmo quando o corpo cai, a aposta já está ganha na ressurreição.

Epafrodito é, na essência, um mártir vivo. Não morreu, mas esteve disposto a morrer. Deu tudo o que se pode dar sem morrer. E Paulo diz à igreja: vocês sabem reconhecer um mártir? Sabem a honra que isso encerra? Pois aprendam a reconhecer. Aquele que arrisca tudo pelo evangelho merece a mais alta estima da comunidade.

IX. A honra que não infla ninguém

Mas alguém poderia perguntar — e é uma boa pergunta: Paulo não está criando um culto ao herói? Honrar homens… isso não rouba a glória de Deus?

E aqui precisamos ler este versículo à luz do que vem poucas linhas antes, no mesmo capítulo. Porque Filipenses 2 não começa com Epafrodito. Começa com um hino — o mais alto cume da carta — sobre Aquele que, “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo”. Cristo, que desceu, e desceu, e desceu ainda mais, até à morte, e morte de cruz. E que por isso Deus o exaltou soberanamente.

Quando Paulo manda honrar Epafrodito, ele não está abrindo uma exceção ao hino. Está mostrando o hino encarnado num homem comum. O que a igreja vê em Epafrodito não é o mérito de Epafrodito — é a mente de Cristo tomando forma na vida de um servo. É o esvaziamento de Cristo se refletindo, em escala humana, num filipense de carne e osso.

E sem jamais descuidar disto: tudo, do primeiro ao último passo, é movimento da Trindade, por sua graça. Foi por graça que o Senhor alcançou o homem de nome pagão. Foi por graça que o levantou na assembleia. Foi por graça que o sustentou na estrada, que o guardou na doença, que o curou por misericórdia. A honra que a igreja presta a Epafrodito não é um troféu ao esforço da carne — é o reconhecimento da graça de Deus operando no servo.

A igreja honra o homem porque reconhece nele a obra de Deus. E por isso essa honra não infla ninguém: ela atravessa o homem e sobe, como incenso, até o Cristo que o capacitou.

X. E nós?

A história termina, imagino eu, num porto ou numa estrada perto de Filipos. Um navio atraca, ou uma silhueta aparece na futura Via Egnácia. Alguém grita: “É ele! Epafrodito voltou!” E a igreja — porque a igreja de Filipos leu a carta, e a igreja de Filipos obedecia — não o recebe com interrogatórios, não o recebe com olhares de cobrança, não pergunta pelos planos que não se cumpriram.

A igreja o recebe no Senhor. Com toda a alegria. E o honra.

E agora a pergunta atravessa os séculos e chega até nós, até esta comunidade, até você.

Como nós recebemos os que voltam com os planos interrompidos? O missionário que adoeceu no campo. O obreiro que precisou parar. A serva de Deus cujo projeto, tão bem orado e tão bem planejado, desmoronou por causas que ela não escolheu. Nós os recebemos com toda a alegria — ou com aquele olhar que pergunta em silêncio: “o que foi que deu errado?”

Aprendamos de Filipos. As vicissitudes fazem parte do chamado. A doença alcança os santos. Os planos se interrompem nas mãos dos mais fiéis. E nada disso é fracasso, quando a vida foi apostada na obra de Cristo.

Que a nossa comunidade seja um lugar onde o serviço sacrificial é reconhecido. Onde quem se entregou é acolhido, mesmo que volte antes da hora, mesmo que volte ferido. Onde honramos os que arriscam tudo — não para exaltar o ego de ninguém, mas para celebrar ao Senhor de toda fé graça, que toma homens e mulheres comuns, com nomes comuns e corpos frágeis, e os capacita a viver de forma extraordinária.

Porque no fim das contas, esta história inteira cabe numa imagem: um homem com nome de jogador, diante da mesa da vida, com tudo o que tinha nas mãos. Ele poderia ter guardado. Poderia ter apostado pouco. Poderia ter invocado a sorte.

Ele lançou tudo. E não gritou o nome de deusa nenhuma.

A aposta dele tinha outro nome. Tem outro nome. O nome que está acima de todo nome — diante do qual todo joelho se dobrará, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

Amém.

Ariovaldo Ramos

Amor

A Maternidade como Centro da Fé Bíblica – Uma Reflexão a partir de Gênesis 24.66-67

“Depois que o empregado deu a Isaque o relatório completo da viagem, Isaque levou Rebeca para a tenda de sua mãe, Sara. Ele se casou com Rebeca, e ela se tornou sua esposa. Ele a amava muito. Foi assim que Isaque se consolou depois da morte de sua mãe.” (Gênesis 24.66-67, A Mensagem)

Um Texto que Revela mais do que Parece

À primeira vista, este texto bíblico parece ser apenas a descrição do casamento de Isaque. Eliézer cumpre a missão dada por Abraão, traz Rebeca, e a união se realiza. Mas, ao olharmos com mais atenção, percebemos que este não é apenas um texto sobre casamento — é um texto sobre a centralidade da maternidade.

Repare na construção: Isaque leva Rebeca para a tenda de sua mãe Sara. Casa-se com ela. E o narrador conclui dizendo que assim ele se consolou da morte de sua mãe. A mãe ausente é mencionada duas vezes em um único versículo. Sara já não está viva, mas continua sendo referência fundamental — é a partir dela que é mencionado o consolo, é em sua tenda que a nova vida se inicia, é em sua memória que se ancora o refúgio.

A maternidade aparece aqui como o lugar do refúgio, da reconexão com a vida, da reconexão com a fonte da própria existência.

Os Três Movimentos da Trindade

Não sexualizamos a Trindade, mas Trindade se apresentou a nós em três movimentos relacionais das três pessoas: paternidade, filialidade e maternidade.

• No Pai, a paternidade, onde encontramos provisão, direção e proteção.

• No Filho, a filialidade, onde encontramos alinhamento, consecução e superação.

• No Espírito Santo, a maternidade, onde encontramos nutrição, acolhimento e inspiração.

A maternidade é o princípio da existência. Todo ser humano veio pelo caminho da maternidade, foi protegido pela maternidade, foi gerado pela maternidade. É por isso que ela ocupa lugar tão central nas Escrituras.

A Promessa Original

A fé bíblica nasce sob o signo da maternidade. No Éden, quando Deus anuncia o conflito entre o Maligno e a humanidade, a promessa é clara: a mulher venceria Satanás através da maternidade. Haveria uma guerra entre a serpente e a mulher, mas a mulher prevaleceria — porque dela viria o Redentor.

Durante milênios incontáveis, Israel se preparou para o aparecimento de uma mulher. Que mulher? A mulher que daria à luz o Redentor. Toda a história da redenção se constrói em torno da maternidade.

O Espírito Santo como Figura Materna nas Escrituras

Nas línguas originais, o Espírito Santo aparece no feminino. Ruach HaKodesh, em hebraico, é substantivo feminino. Em grego, pneuma também carrega essa nuance.

Essa não é uma curiosidade linguística menor. A primeira figura da Trindade que aparece nas Escrituras é exatamente a figura materna:

“No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.” (Gênesis 1.1-2)

A expressão “pairava sobre as águas” alude ao movimento da ave que envolve o ovo para gerar vida. Lembremos: o planeta era todo água. Não havia ainda porção seca, não havia espectador na terra firme observando o Espírito. Só havia água. E sobre toda essa água, a figura materna da Trindade envolveu o planeta e nele inoculou a vida.

Por isso, depois, a criação se desdobra como ordens por meio do Verbo: “Apareça!” — apareça o vegetal, as aves, os animais nos vários habitats. A vida já estava lá, inoculada pela maternidade sagrada. Agora ela apenas ganhava forma.

A Intrauterinidade Espiritual

Por que a maternidade é tão central? Porque a vida, antes de tudo, é intrauterina.

Durante nove meses, não conhecemos outro mundo. Só conhecemos um ventre. E nessa vida uterina, nossa existência se confunde com a existência da mãe: o que acontece com ela acontece conosco. Respiramos o ar que ela inspira. Se ela não tem acesso ao oxigênio, nós também não temos. Alimentamo-nos dela e nela.

E não é exatamente essa a relação que o Espírito Santo quer ter conosco?

Que sejamos sempre plenos do Espírito. Que vivamos no Espírito. Que nos alimentemos do Espírito. Que estejamos sempre envoltos pelo Espírito, como a criança intrauterina está envolta pelo ventre materno. Que o Espírito esteja em nós e sobre nós.

Esta é a grande advertência das Escrituras: fora da intrauterinidade do Espírito, perdemos o rumo. Precisamos da sabedoria que está no Espírito, da nutrição que está no Espírito, da inspiração que está no Espírito.

O segredo da fé cristã é a intrauterinidade espiritual.

Quando, por causa da sua vitória, por meio da ressurreição, o Cristo tornou possível a moradia da Ruach Kadosh em nós, assim como o seu derramamento sobre nós, o Senhor nos presenteou com o consolo que Isaque almejou: a volta para a maternidade como lugar de vida, de descanso e de revigoramento.

Uma Revolução Conceitual Necessária

O Dia das Mães não é apenas uma reflexão cerimonial. É um chamado.

A maternidade deveria ser o centro das nossas decisões — não apenas das familiares, mas da economia, das políticas, da sustentabilidade. A manutenção da humanidade exige a manutenção do planeta, e a manutenção da humanidade exige a consciência da maternidade.

Precisamos oferecer ao mundo todas as condições necessárias para que a maternidade tenha continuidade. Para que toda mulher tenha as possibilidades de que necessita para ser a mãe que sonha ser. Para que o planeta inteiro — que geme aguardando a manifestação dos filhos de Deus, como diz Paulo em Romanos 8 — veja esses filhos retornarem à consciência materna.

Essa retomada nos levaria a uma revolução conceitual e a uma revolução nas estruturas da sociedade. Devolveria à paternidade o sentido de missão e à filialidade o lugar de renovo. E recolocaria a maternidade como pressuposto básico, como fundamento de todas as nossas decisões.

Que o milagre da maternidade de Deus seja redivivo em cada um de nós, como o lugar de retorno, o lugar do consolo. Que a maternidade ganhe sentido pleno para nós, e que criemos nossos filhos sob essa nova perspectiva.

Aleluia pela maternidade. Que a maternidade da Ruach HaKodesh visite cada um de nós, assim como visitou nossa realidade histórica.

Que a graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo — que a Unidade da Trindade, que a presença, a maravilha, o cuidado e o carinho do Espírito de Deus, e que nos trouxe novamente a possibilidade da intrauterinidade da Ruach Kadosh, o consolo de nossas dores — seja com cada um dos irmãos, com todo o povo de Deus, e alcance toda a humanidade, como Deus prometeu a Abraão.

Amém.

Ariovaldo Ramos

O Instrumento e o Luthier – Ariovaldo Ramos

Deixa eu te contar uma história.

 

Não é uma história inventada. É a mais antiga de todas — mais antiga que o tempo, porque começa antes que o tempo existisse. Mas tem personagens reais, cenas que você vai reconhecer, e um final que ainda está acontecendo agora, aqui, enquanto você respira.

 

Ela começa com um luthier.

 

Você sabe o que é um luthier? É o artesão que fabrica instrumentos de corda. Violinos, violas, violoncelos. São pessoas que passam anos aprendendo que tipo de madeira envelhece certa, qual a espessura perfeita para a tampa, como curvar as laterais no vapor sem que a madeira parta. Não é um ofício apressado. É um ofício de amor — daquele amor que tem paciência suficiente para esperar o verniz secar ao sol, camada por camada, sem atalhos.

 

Mas a parte mais secreta do ofício — aquela que os aprendizes só aprendem depois de muitos anos, e que nenhum manual consegue descrever por inteiro — é a peça chamada alma.

 

A alma é um pequeno cilindro de madeira que fica dentro do violino, encaixado entre a tampa e o fundo, numa posição precisa, calculada com milímetros de precisão. Ela não aparece. Ninguém a vê quando o instrumento está pronto. Você pode segurar o violino, admirar o verniz, passar os dedos nas cordas — e nunca saber que ela existe. Mas é ela que transmite a vibração de uma face à outra. É ela que faz o instrumento ressoar como um todo. É ela que transforma o simples atrito de um arco numa voz.

 

Sem a alma no lugar certo, o violino tem forma, tem cordas, tem verniz — mas não tem som. Existe, mas não vive.

 

Talvez você conheça esse estado. Existir sem viver. Ter a forma de tudo — família, trabalho, religião, até fé — e sentir que algo essencial está fora do lugar, que a nota que você produz não ressoa como deveria. Se conhece esse estado, fique comigo. Esta história é para você.

 

Certa vez, um luthier construiu um instrumento diferente de tudo que havia feito antes. Escolheu cada pedaço de madeira como se estivesse escolhendo um filho. Curvou as costelas com paciência de quem não tem pressa. Envernizou camada por camada, esperando cada uma secar ao sol. E quando chegou a hora de colocar a alma — o momento mais delicado de todo o processo — o luthier não usou uma ferramenta. Usou as próprias mãos. Soprou sobre a alma antes de encaixá-la. E disse, baixinho, como quem conta um segredo entre dois que se amam: “Agora você é minha.”

 

O instrumento ficou pronto. E quando o luthier passou o arco nas cordas pela primeira vez, o som que saiu não era apenas som — era presença. As paredes do ateliê responderam. O ar ficou diferente. E o luthier, que havia feito centenas de instrumentos, sentiu algo que nunca havia sentido antes: que aquele violino não havia sido apenas fabricado. Havia sido criado para pertencer a ele. Para tocar com ele. Para ressoar com a frequência que somente ele, o seu criador, podia produzir.

 

Esse instrumento era a humanidade. E o luthier era a Triunidade — o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

 

Por um tempo — um tempo sem medida, antes que o tempo fosse contado —, o instrumento e o luthier viviam juntos. E a música que faziam juntos era diferente de qualquer outra coisa que o cosmos havia ouvido: era a reverberação da própria alegria do Criador se tornando som dentro da criatura. A humanidade não era simplesmente tocada — ela coparticipava da natureza divina. Vibrava com a mesma frequência. Ressoava com o mesmo amor que o Pai tem pelo Filho e o Filho pelo Pai, desde antes de qualquer começo.

 

Era para isso que você foi feito. Não para cumprir regras, não para acumular méritos, não para ter medo de Deus nem para ficar à distância respeitosa d’Ele. Para isso: para ressoar com a frequência do Criador. Para fazer música juntos.

 

Mas então veio a rebelião.

 

Não foi uma explosão. Não foi um trovão. Foi algo mais silencioso e mais devastador — um deslocamento.

 

A alma do instrumento se soltou do lugar onde havia sido colocada com tanto cuidado. Não caiu para fora. Ficou dentro — mas fora do lugar. E o violino que havia enchido o universo de música se tornou um instrumento mudo. Ainda tinha forma de violino. Ainda tinha cordas, ainda tinha verniz, ainda tinha a silhueta exata de tudo que havia sido. Mas quando alguém passava o arco, o que saía era um som sem corpo, sem ressonância, sem vida.

 

O instrumento existia. Mas havia esquecido como soar.

 

Esse é o ser humano depois da Rebelião. Não destruído. Não aniquilado. Mas fraturado em sua parte mais essencial — aquela capacidade de ressoar com a frequência de Deus, de coparticipar da vida que pulsa entre o Pai e o Filho e o Espírito. A imagem não desapareceu — mas ficou distorcida, como um espelho amassado que ainda reflete algo, mas deforma tudo. Ainda desejoso de amar, de buscar, de adorar. Mas buscando a música em lugares onde ela não estava — no poder, no controle, na religião, na distância que parecia mais segura do que a proximidade.

 

E assim, ao longo de gerações, o instrumento foi passando de mão em mão, sendo tocado por músicos diferentes, produzindo sons diferentes. Às vezes belos. Às vezes terríveis. Às vezes muito parecidos com música — quase, mas não exatamente. Mas nunca — nunca — aquele som original. Porque aquele som não dependia de habilidade. Dependia de alma. E a alma estava fora do lugar.

 

Você que está me ouvindo agora e talvez tenha passado anos tentando tocar o instrumento da sua vida com mais habilidade, mais disciplina, mais esforço religioso — e sentindo que ainda falta alguma coisa — você já sabe o que é esse silêncio por dentro.

 

Chegou o dia em que o luthier resolveu vir pessoalmente.

 

Não para enviar uma carta explicando como consertar o instrumento. Não para mandar um assistente com instruções. Ele mesmo desceu do ateliê, entrou na oficina barulhenta e empoeirada do mundo, pegou o instrumento nas mãos — e o levou de volta para dentro de si.

 

Esse é o mistério da Encarnação. O Filho de Deus não se disfarçou de humano. Não vestiu a humanidade como um traje que se tira ao voltar para casa. Ele a assumiu por inteiro — com a fratura, com o peso, com a opacidade de um instrumento que havia esquecido como soar. Entrou nela de dentro para fora, como o luthier que abre o instrumento com cuidado infinito, desce até a alma deslocada, e — com uma precisão que só quem o fabricou pode ter — recoloca cada fibra no lugar certo.

 

E aqui está o que faz desta história diferente de todas as outras histórias de conserto que você já ouviu: o luthier não apenas reparou o instrumento. Ele o tocou. Por trinta e três anos, passou o arco sobre as cordas da natureza humana — sentindo fome, aprendendo a andar, fazendo amigos, chorando diante de uma sepultura, sendo tentado no deserto, dormindo num barco durante a tempestade.

 

Ele sentiu o que você sente. Ele carregou o que você carrega.

 

E em cada nota que tirava daquela natureza fraturada, ele mostrava que era possível — que aquele instrumento ainda podia soar. Que a alma podia voltar ao lugar. Que a humanidade podia, de dentro de si mesma, ressoar com a frequência do Pai. Não porque a fratura havia desaparecido, mas porque o próprio luthier a estava executando — e em suas mãos, mesmo o instrumento fraturado produzia música.

 

Mas antes disso — muito antes — houve o episódio do Sinai.

 

Porque a história que estou te contando não vai em linha reta. Ela tem um desvio longo, um desvio que durou séculos, e que precisamos entender para perceber o que Jesus está dizendo quando chega ao cenáculo.

 

O luthier havia tentado, antes da Encarnação, uma aproximação direta. Desceu sobre o monte, fez o fogo, deixou a voz ecoar. Queria que o instrumento o ouvisse — não através de intermediários, não filtrado por outras vozes, mas diretamente. A vibração da fonte chegando sem mediação à caixa de ressonância.

 

Mas o que aconteceu? O instrumento tremeu. Não de alegria — de medo.

 

Porque um instrumento com a alma fora do lugar não consegue receber a frequência para a qual foi construído sem que isso pareça uma ameaça. O som que deveria ser lar soou como destruição. A presença que havia sido projetada para ser abrigo foi sentida como fogo que consome.

 

E os chefes do povo foram até Moisés e disseram — e é impossível ouvir essas palavras sem sentir o peso delas — “Vai lá e ouça o que Ele quer dizer. Depois vem e nos conta.”

 

Eles elegeram uma triangulação. Puseram um homem entre eles e a fonte da música — não por maldade, mas porque genuinamente não conseguiam mais suportar a frequência direta. Sua natureza não estava em condições. E Deus — que nunca abandona o instrumento à sua incapacidade, que sempre encontra um jeito de chegar até a criatura de onde ela consegue ser alcançada — aceitou. Mas disse, baixinho, como quem sente algo que não tem nome em nenhuma língua humana: “Como seria bom se eles sempre pensassem assim.”

 

Era o luthier olhando para o violino que ele mesmo havia feito, sabendo que aquele instrumento havia sido criado para coparticipar da própria música divina — e vendo-o recuar, com medo do som que era, na verdade, a sua própria frequência original.

 

Você já sentiu isso? Já se aproximou de Deus e sentiu medo em vez de lar? Já chegou perto de uma experiência real com o Pai e instintivamente colocou alguém entre você e Ele — um pastor, uma doutrina, um ritual, qualquer coisa que filtrasse a intensidade? Se sentiu, não se condene. Você não é fraco. Você é humano. Um instrumento com a alma fora do lugar simplesmente não consegue fazer outra coisa.

 

Mas a história continua.

 

Foram séculos assim. O instrumento sendo passado adiante, de geração em geração. A música sendo transmitida por representantes — profetas, sacerdotes, reis. Nunca a frequência direta. Sempre filtrada, mediada, guardada atrás de um véu. O Santo dos Santos — aquele lugar onde a presença do luthier habitava com toda intensidade — era separado do povo por um tecido espesso. Apenas o sumo sacerdote entrava. Uma vez por ano. Com tremor.

 

E o instrumento ia vivendo assim. Sem saber que havia sido feito para algo mais.

 

Talvez seja aqui que alguns de nós vivam até hoje — à beira do véu, sabendo que existe algo do outro lado, mas sem ousar atravessar. Recebendo a música filtrada, de segunda mão, e acreditando que isso é tudo que existe para nós.

 

Não é.

 

Mas o luthier havia descido. E o que aconteceu a seguir não foi uma reparação — foi um triunfo.

 

Depois de trinta e três anos habitando a natureza do instrumento, passando o arco sobre cada corda da existência humana, tirando música de onde todos achavam que havia apenas silêncio — ele chegou ao momento mais inesperado da história. Morreu.

 

O instrumento foi destruído. Não metaforicamente — fisicamente, brutalmente. A madeira foi partida, as cordas rompidas, a caixa esmagada. E quem assistia de fora pensava que era o fim da história.

 

Mas no terceiro dia, o luthier reconstituiu o instrumento — com as mesmas mãos que o haviam criado no princípio. E o que surgiu não era o instrumento simplesmente retornado ao estado original. Era algo que nunca havia existido antes. Uma humanidade nova. Não apenas a humanidade de antes da Queda, restaurada ao ponto de origem. Algo além disso — uma humanidade que havia descido ao lugar mais fundo da fratura, ao lugar da morte, e havia voltado transformada. Uma humanidade cuja alma não estava mais simplesmente no lugar — estava unida, em comunhão inseparável, à própria vida do luthier.

 

Paulo, que não era poeta mas nesse momento soou como um, escreveu: “O primeiro Adão foi feito alma vivente. O último Adão é espírito vivificante.” O primeiro recebia vida. O segundo é a fonte de vida. Não uma versão melhorada do mesmo instrumento quebrado. Uma nova matriz. Um novo começo para toda a espécie humana.

 

E Irineu, que viveu nos primeiros séculos da fé e que entendia de matrizes como poucos, disse com a clareza de quem viu o desenho completo: “Deus se tornou homem para que o homem se tornasse Deus.” Não no sentido de que o instrumento vire luthier, ou que a criatura se confunda com o Criador. Mas no sentido de que o ser humano seja, finalmente, plenamente o que havia sido criado para ser: um ser que coparticipa da natureza divina, como disse o apóstolo Pedro, que ressoa com a frequência da Trindade, que vive dentro da música e não apenas a ouve de fora.

 

Foi nessa noite — a noite antes do triunfo, horas antes de tudo isso acontecer — que Jesus estava sentado com os seus no cenáculo.

 

Imagine a cena. Uma mesa. Pão e vinho. Homens que amava, que haviam largado redes e cobranças de impostos para seguir um carpinteiro de Nazaré. Homens que ainda não entendiam o que estava prestes a acontecer. Homens com medo do amanhã.

 

E Jesus — que sabia exatamente o que o amanhã traria — olha para eles e diz uma frase que, quando você entende o que está por trás dela, é impossível ouvir sem que algo se mova dentro do peito.

 

“Até agora vocês não pediram nada em meu nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa.”

 

Até agora. Milênios desde o Éden. Mil e quinhentos anos desde o Sinai. Uma quantidade imensa de instrumentos que não conseguiam ressoar com a frequência para a qual haviam sido feitos. Uma longa história de véus e representantes e triangulações nascidas da incapacidade de suportar a presença direta de quem nos havia criado para comungar.

 

Até agora. Mas agora não mais.

 

Porque o luthier estava sentado ali, naquela sala, com aqueles homens — na carne, na madeira, nas cordas da natureza humana que havia assumido. E estava dizendo: a nova matriz já existe. Eu a sou. E o que vou enviar — o Espírito — vai entrar em vocês e recolocar a alma no lugar. E quando isso acontecer, vocês vão descobrir que conseguem ouvir o som de que vinham fugindo desde o Sinai — não como destruição, mas como casa.

 

Orar em nome de Jesus não é apresentar um cartão de acesso a um lugar que era proibido. É tocar o instrumento a partir da nova matriz. É exercer a existência de quem já foi reconstituído no Filho — de quem já não opera apenas a partir da natureza de Adão, fraturada e muda, mas da natureza do último Adão, ressuscitada e ressonante. É o Espírito habitando dentro do instrumento, sendo ele mesmo a alma recolocada no lugar — transmitindo a vibração do Filho ao Pai de dentro de cada ser humano que se ancora nessa nova origem.

 

É por isso que Paulo, quando quis descrever o que acontece quando o Espírito ora em nós, não buscou palavras de solenidade religiosa. Usou a linguagem mais simples e mais íntima que existe — a de uma criança que reconhece o pai depois de muito tempo longe: “Abbá, Pai.” Não se aprende essa palavra. Ela brota, naturalmente, de dentro de quem voltou para casa.

 

E a alegria.

 

A alegria completa de que Jesus fala não é o alívio de uma tensão resolvida. Não é a satisfação religiosa de quem fez tudo certo. É algo que os músicos conhecem bem — aquele momento em que o instrumento está perfeitamente afinado, o arco está bem distribuído, a sala tem a acústica certa, e o músico toca uma nota e ela soa completa. Não apenas audível — completa. Como se a nota preenchesse o espaço que havia sido reservado para ela desde sempre.

 

Essa é a alegria que Jesus quer colocar em cada ser humano. E Ele mesmo diz de onde ela vem: “Para que eles tenham a minha alegria completamente em si mesmos.” A alegria d’Ele. A alegria que existe dentro da Triunidade desde antes de qualquer começo — o amor do Pai pelo Filho transbordando em deleite, o amor do Filho pelo Pai ressoando em gratidão, o Espírito sendo o próprio vínculo dessa alegria entre as Pessoas. Essa alegria — essa, e não outra — é o que acontece quando o instrumento está com a alma no lugar certo e a frequência do Criador passa livremente de uma face à outra.

 

Não é apenas uma emoção que vem e vai. É um estado de ser que já começa agora — mesmo em meio às dores e tensões deste mundo — e que será plenamente manifestado quando toda a criação for renovada. É o estado de uma criatura que está funcionando como foi feita para funcionar. Coparticipante da natureza divina. Inserida na vida que pulsa entre o Pai e o Filho pelo laço do Espírito. Não observando a música de fora. Sendo parte dela.

 

E por isso ela é completa — não no sentido de que tudo ao redor está resolvido, mas no sentido de que o ser está inteiro. Porque você pode estar com dor e estar inteiro ao mesmo tempo, quando a alma está no lugar certo.

 

Quero terminar contando o que acontece com o instrumento.

 

O luthier entrega o violino reconstituído de volta. E diz, com aquela mesma voz baixa de quando soprou sobre a alma no princípio: “Agora toca.”

 

E o instrumento — pela primeira vez desde antes da fratura — passa o arco sobre as cordas.

 

Não sei se você consegue imaginar aquele momento. Aquela hesitação. Porque o instrumento carrega a memória de tantos sons opacos, de tantas notas que saíram erradas, de tanto esforço que produziu tão pouco. E de repente está com o arco na mão, diante do luthier que o criou, e ele diz: toca.

 

E o instrumento toca. E o som que sai é diferente de tudo que havia saído antes. Não é mais o som opaco de uma alma deslocada. Não é mais o som filtrado de quem só ouviu a música de segunda mão, passada por representantes. É o som de uma criatura que descobriu o que sempre foi — que a frequência que vinha de fora e a assustava é, na verdade, a sua própria frequência original. Que o fogo do Sinai que ela temia é o mesmo fogo que agora arde dentro dela como Espírito. Que o Pai de quem ela havia fugido desde o jardim é o mesmo Pai para quem o Filho a leva pela mão agora.

 

E nesse momento — no momento em que o instrumento toca e reconhece no próprio som a voz do luthier — algo acontece que não tem outro nome.

 

Alegria.

 

Não qualquer alegria. A alegria completa. A alegria de quem voltou para casa não apenas para ser recebido — mas para descobrir que casa é o que ele sempre foi, por dentro, desde que foi criado. A alegria de um ser que buscou por tanto tempo e que, no ato de orar ao Pai pelo Filho no Espírito, de repente se encontra — e descobre que não estava procurando um lugar. Estava procurando uma natureza.

 

E essa natureza é a natureza do Filho. E ela é, agora, também a sua.

 

No princípio havia um luthier e um instrumento, e entre eles havia música.

Houve um tempo longo e doloroso em que o instrumento esqueceu a música.

Então o luthier desceu, assumiu o instrumento, o levou à morte e à ressurreição — e o recriou, na mesma humanidade, a partir de uma nova matriz no Filho.

E agora ele diz, para você e para mim, com a mesma voz de quando soprou sobre a alma no princípio:

 

“Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa.”

 

Não é um convite a uma técnica. Não é um convite a ser mais religioso. É um convite a ser o que você é — em Cristo, no Espírito, diante do Pai.

 

O luthier está aqui. O instrumento é você. E a música ainda está esperando.

Ariovaldo Ramos