O erro do cessacionismo
agosto 13, 2026
O que é perfeito ainda não chegou
Uma exposição catequética de 1 Coríntios 13.8-10
“O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.” (1Co 13.8-10)
O que este texto ensina? Ensina que existe uma só coisa que não passa: o amor. Tudo o mais que Deus dá à sua Igreja para o tempo presente — profecia, línguas, ciência — um dia deixará de ser necessário. Não porque sejam falsos ou menores, mas porque servem a um propósito que um dia se cumprirá.
Primeira pergunta: por que dizemos que conhecemos “em parte”?
Resposta: Porque receber dons é, ao mesmo tempo, prova de que ainda somos imperfeitos.
João Calvino ensina: “a intenção de Paulo é mostrar que o fato de recebermos conhecimento e profecia é precisamente uma prova de que somos imperfeitos. Portanto ‘em parte’ significa que não fomos ainda aperfeiçoados. Conhecimento e profecia, portanto, terão lugar em nossas vidas enquanto a imperfeição fizer parte de nossa existência terrena, pois eles nos assessoram até que plenitude nos atinja.” (Comentário à Sagrada Escritura, Exposição de 1Coríntios, 1ª ed. em português, São Paulo, Edições Paracletos, 1996, p. 402)
Guarde isto: o dom não é troféu de quem já chegou. É muleta de quem ainda caminha. Ninguém deveria se orgulhar de precisar de muleta — deveria, isso sim, reconhecer nela um sinal da própria fraqueza.
Segunda pergunta: quando cessarão os dons?
Resposta: Quando vier o que é perfeito — e isso acontece em dois tempos, não em um só.
Calvino explica: “Quando a perfeição chegar, tudo o quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido. Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa com a morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; porém, ela não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final.” (op. cit., p. 403)
Guarde isto: a perfeição começa na morte de cada crente e só se completa na ressurreição, no juízo final. Entre a cruz e aquele dia, a Igreja inteira — em qualquer século — vive “em parte”. Não há um marco histórico no meio do caminho, como o fim da era apostólica, que apague essa condição antes da hora.
Terceira pergunta: para que servem os dons enquanto vivemos?
Resposta: Servem para nos ajudar a caminhar até o alvo — não para nos entreter nem para nos exibir.
Calvino resume assim: “o benefício oriundo dos dons só é eficaz enquanto estivermos nos movendo para o alvo” (op. cit., p. 402). E acrescenta: “Paulo poderia ter posto nestes termos: ‘Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.'” (op. cit., p. 403)
Guarde isto: dom é equipamento de viagem, não decoração de chegada. Ninguém usa capa de chuva dentro de casa. Enquanto a Igreja peregrina nesta terra, entre a queda e a glória, ela precisa de profecia, de línguas e de ciência como o viajante precisa de provisão. Só a morte — e, plenamente, a ressurreição — tornam essas provisões dispensáveis.
Quarta pergunta: por que dois erros contrários caminham juntos nesse assunto?
Resposta: Porque os dois insistem em fechar antecipadamente o que Deus só fecha na ressurreição.
O cessacionismo ensina que os dons já cessaram, geralmente ligando o fim deles ao fechamento do cânon. Isso é liberalismo teológico disfarçado de zelo pela Escritura: troca a promessa que Paulo dá — perfeição na morte e na ressurreição — por um marco administrativo, mais confortável para quem já não sabe lidar com o sobrenatural vivo na Igreja de hoje.
O determinismo ensina que tudo — inclusive os dons — se cumpre como engrenagem cega, sem exigir do crente que se mova para o alvo. Isso é paganismo disfarçado de soberania: transforma a Igreja em plateia de um script já escrito, quando o próprio texto diz que os dons “são eficazes enquanto estivermos nos movendo” — isto é, supõem resposta viva, fé em exercício, vocação caminhando.
Guarde isto: um erro fecha o relógio dos dons cedo demais; o outro fecha o relógio da resposta humana desde sempre. Os dois, por caminhos opostos, tiram da Igreja a tensão do “em parte” que Paulo pede que vivamos com paciência e fé.
O que fica no fim de tudo
De todos os dons, um não é bengala nem provisão de viagem: o amor. Ele não serve apenas para chegar ao alvo — ele já é, aqui e agora, uma amostra do próprio alvo. Por isso Paulo pode dizer, sem hesitar, que o amor jamais acaba, enquanto tudo o mais — por mais precioso que seja hoje — um dia será posto de lado, como se põe de lado a bengala de quem finalmente aprendeu a correr.
Aplicação para a igreja: enquanto vivermos, precisaremos dos dons — sem orgulho de tê-los, sem vergonha de precisar deles. E viveremos “em parte” até a morte, plenamente até a ressurreição: nem um dia antes, como quer o cessacionista, nem por mecanismo automático, como quer o determinista. Vivemos pela fé, em amor, até que venha o que é perfeito.