A Confissão de Ló

A confissão de Ló (Gênesis 12-18)

 

Ariovaldo Ramos

 

Tio Abrão chegou esbaforido no clã…

Disse que o Deus falou para ele deixar o clã e ir para um lugar onde o Deus o levaria.

A gente nunca tinha ouvido de um Deus que fala!

Todos os nossos ídolos eram mudos.

 

Terá, meu avô, decidiu que iríamos com o tio Abrão…

Que seguiríamos ao Deus que fala!

Obedecemos. Saímos de Ur. Mas o meu vô estava muito velho…

Tivemos de parar em Harã, onde meu vô morreu, depois de algum tempo.

 

O Deus falou de novo com o tio Abrão, e repetiu a ordem dada em Ur…

O tio Naor não quis continuar seguindo o Deus que fala.

Meu pai, Harã, já havia morrido em Ur, terra dos Caldeus.

Eu escolhi seguir o tio Abrão, indo onde o Deus que fala o levasse.

 

Rapidamente chegamos ao carvalho de Moré, terra dos Cananeus…

Ali, no vale, o Deus que fala apareceu ao meu tio!

O Deus falou que daria ao meu tio e à sua descendência toda aquela terra.

Meu tio ergueu um altar ao Deus que fala e que aparece pessoalmente!

 

Aí, tio Abrão decidiu ir para o monte (mais seguro) ao oriente de Betel.

Ele construiu um altar ao Deus que fala e aparece, mas o Deus não veio.

Parece que meu tio entendeu que bastava construir um altar e chamar pelo Deus…

Mas o Deus não falou e nem veio, e meu tio começou a descer para o sul.

 

Eu estava sempre com o meu tio, agora eu era do seu clã.

Havia muita fome na terra do Neguebe, extremo sul…

Meu tio decidiu entrar no Egito para ficar… por causa da fome.

Saímos da terra para onde o Deus que fala nos havia levado!

 

Perto do Egito, meu tio chamou a tia Sarai…

A tia Sarai, apesar da idade, possuía uma beleza impressionante!

O tio pediu para que, no Egito, ela dissesse que ela era irmã dele…

Tio Abrão tinha medo dos egípcios o matarem para terem a tia.

 

E aconteceu… os egípcios viram a tia Sarai, sobremaneira formosa!

Levaram-na, com o consentimento do tio, para a casa do Faraó…

O Faraó, por causa da Tia, enriqueceu muito o nosso clã!

Mas o Deus que fala, interveio e puniu a casa de Faraó com grandes pragas!

 

O Deus que fala, de alguma forma falou ao Faraó e honrou a tia Sarai…

O Faraó ficou indignado com o tio Abrão, chamou-o de mentiroso e amaldiçoador!

O Faraó nos expulsou mas não tirou nada do que nos tinha dado…

Fomos escoltados para fora do Egito.

 

Estávamos muito ricos, e o tio Abrão nos levou do Neguebe para  Betel…

Mas havia alguma maldição naquela riqueza toda… 

A gente não conseguiu ficar juntos, o clã se dividiu entre mim e o meu tio.

Tio Abrão decidiu que eu deveria ir embora, sem briga, e deixou eu escolher…

 

Eu vi toda a campina do Jordão que era maravilhosa, parecia o jardim do Senhor!

Encantado pelo que vi, escolhi ir para lá, e parti para o Oriente.

Migrando de pasto em pasto fui me aproximando da região de Sodoma e Gomorra!

Estas cidades eram conhecidas por sua devassidão e crueldade para com os pobres.

 

Aconteceu que quatro reis, herdeiros do império de Ninrode, formaram uma coalizão…

Era a grande potência da região, as terras de Sodoma e de Gomorra eram seus quintais…

Serviram a Quedorlaomer, o rei maior da coalizão, por doze anos, mas se rebelaram…

Quedorlaomer e seus aliados devastaram toda a região e me levaram prisioneiro.

 

Contaram para o meu tio sobre o que aconteceu comigo…

Meu tio juntou 318 homens, perseguiu as tropas dos 4 reis da coalizão e os derrotou!

Miraculoso! Certamente foi o poder do Deus que fala!

Meu tio me salvou, não ficou com os despojos e deu dízimo ao rei Melquisedeque!

 

O rei Melquisedeque era um ser misterioso…

Ninguém sabia a sua origem… Ele era o rei de Salém!

Ele veio ao meu tio, trouxe pão e vinho e abençoou o meu tio.

Ele era misterioso… nada me tira da cabeça que ele era aparecimento do Deus que fala.

 

Eu estava salvo porque o meu tio se importava comigo, e me tratou como parte do clã.

Mas por motivos que não sei explicar eu decidi voltar para Sodoma…

Eu deveria ter ficado com meu tio…Pior, eu decidi morar na cidade!

E fui com a minha família para o meio da devassidão e da crueldade!

 

Eu prosperei na cidade, até me tornei juiz… mas eles não ouviam nada do que eu dizia!

Um dia dois mensageiros do Deus que fala me procuraram em casa…

Eles disseram que iam destruir toda a região por causa da crueldade para com os pobres.

A crueldade os levara à devassidão. E que eu tinha de partir com os meus!

 

O Deus que fala ouviu o grito dos miseráveis e desceu e falou com o meu tio…

E eles disseram que o meu tio intercedeu por mim!

Eu acolhi os mensageiros; os homens de Sodoma queriam usar os mensageiros.

Ofereci minhas filhas, mas o mensageiros me puxaram para dentro de casa!

 

Os mensageiros, simplesmente, fizeram todos os de Sodoma ficarem cegos!

A cegueira que antes era ética e moral, agora, também, era física… 

Eles nos puseram para fora: eu, minha mulher e filhas… os genros não quiseram ir.

Minha mulher, no meio do caminho para Zoar, olhou para trás, o que não podia.

 

Minha mulher virou uma estátua de sal… morreu assim!

Minhas filhas e eu chegamos a Zoar, que foi poupada da destruição por isso.

Zoar era tão devassa e cruel quanto, mas eu fiquei ali…

Minhas filhas me embriagaram, cometeram incesto, e a devassidão me alcançou!

 

Eu não fiquei com o meu tio…

Não atinei para o fato de que não se deve aproximar de quem provoca o juízo divino…

Não me dei conta de que quem é injusto cai na devassidão e provoca destruição geral…

Eu tinha fé, mas acabei ficando espiritualmente cego!

 

Quem tem ouvidos para ouvir ouça!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O erro do cessacionismo segundo Joáo Calvino

O que é perfeito ainda não chegou

Uma exposição de 1 Coríntios 13.8-10

“O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.” (1Co 13.8-10)

O que este texto ensina? Ensina que existe uma só coisa que não passa: o amor. Tudo o mais que Deus dá à sua Igreja para o tempo presente — profecia, línguas, ciência — um dia deixará de ser necessário. Não porque sejam falsos ou menores, mas porque servem a um propósito que um dia se cumprirá.

Primeira pergunta: por que dizemos que conhecemos “em parte”?

Resposta: Porque receber dons é, ao mesmo tempo, prova de que ainda somos imperfeitos.

João Calvino ensina: “a intenção de Paulo é mostrar que o fato de recebermos conhecimento e profecia é precisamente uma prova de que somos imperfeitos. Portanto ‘em parte’ significa que não fomos ainda aperfeiçoados. Conhecimento e profecia, portanto, terão lugar em nossas vidas enquanto a imperfeição fizer parte de nossa existência terrena, pois eles nos assessoram até que plenitude nos atinja.” (Comentário à Sagrada Escritura, Exposição de 1Coríntios, 1ª ed. em português, São Paulo, Edições Paracletos, 1996, p. 402)

Guarde isto: o dom não é troféu de quem já chegou. É muleta de quem ainda caminha. Ninguém deveria se orgulhar de precisar de muleta — deveria, isso sim, reconhecer nela um sinal da própria fraqueza.

Segunda pergunta: quando cessarão os dons?

Resposta: Quando vier o que é perfeito — e isso acontece em dois tempos, não em um só.

Calvino explica: “Quando a perfeição chegar, tudo o quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido. Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa com a morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; porém, ela não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final.” (op. cit., p. 403)

Guarde isto: a perfeição começa na morte de cada crente e só se completa na ressurreição, no juízo final. Entre a cruz e aquele dia, a Igreja inteira — em qualquer século — vive “em parte”. Não há um marco histórico no meio do caminho, como o fim da era apostólica, que apague essa condição antes da hora.

Terceira pergunta: para que servem os dons enquanto vivemos?

Resposta: Servem para nos ajudar a caminhar até o alvo — não para nos entreter nem para nos exibir.

Calvino resume assim: “o benefício oriundo dos dons só é eficaz enquanto estivermos nos movendo para o alvo” (op. cit., p. 402). E acrescenta: “Paulo poderia ter posto nestes termos: ‘Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.'” (op. cit., p. 403)

Guarde isto: dom é equipamento de viagem, não decoração de chegada. Ninguém usa capa de chuva dentro de casa. Enquanto a Igreja peregrina nesta terra, entre a queda e a glória, ela precisa de profecia, de línguas e de ciência como o viajante precisa de provisão. Só a morte — e, plenamente, a ressurreição — tornam essas provisões dispensáveis.

Quarta pergunta: por que dois erros contrários caminham juntos nesse assunto?

Resposta: Porque os dois insistem em fechar antecipadamente o que Deus só fecha na ressurreição.

O cessacionismo ensina que os dons já cessaram, geralmente ligando o fim deles ao fechamento do cânon. Isso é liberalismo teológico disfarçado de zelo pela Escritura: troca a promessa que Paulo dá — perfeição na morte e na ressurreição — por um marco administrativo, mais confortável para quem já não sabe lidar com o sobrenatural vivo na Igreja de hoje.

O determinismo ensina que tudo — inclusive os dons — se cumpre como engrenagem cega, sem exigir do crente que se mova para o alvo. Isso é paganismo disfarçado de soberania: transforma a Igreja em plateia de um script já escrito, quando o próprio texto diz que os dons “são eficazes enquanto estivermos nos movendo” — isto é, supõem resposta viva, fé em exercício, vocação caminhando.

Guarde isto: um erro fecha o relógio dos dons cedo demais; o outro fecha o relógio da resposta humana desde sempre. Os dois, por caminhos opostos, tiram da Igreja a tensão do “em parte” que Paulo pede que vivamos com paciência e fé.

O que fica no fim de tudo

De todos os dons, um não é bengala nem provisão de viagem: o amor. Ele não serve apenas para chegar ao alvo — ele já é, aqui e agora, uma amostra do próprio alvo. Por isso Paulo pode dizer, sem hesitar, que o amor jamais acaba, enquanto tudo o mais — por mais precioso que seja hoje — um dia será posto de lado, como se põe de lado a bengala de quem finalmente aprendeu a correr.

Aplicação para a igreja: enquanto vivermos, precisaremos dos dons — sem orgulho de tê-los, sem vergonha de precisar deles. E viveremos “em parte” até a morte, plenamente até a ressurreição: nem um dia antes, como quer o cessacionista, nem por mecanismo automático, como quer o determinista. Vivemos pela fé, em amor, até que venha o que é perfeito.


Quando o vinho acaba — Devocional gratuito de 7 dias


O erro do cessacionismo

O que é perfeito ainda não chegou

Uma exposição catequética de 1 Coríntios 13.8-10

“O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.” (1Co 13.8-10)

O que este texto ensina? Ensina que existe uma só coisa que não passa: o amor. Tudo o mais que Deus dá à sua Igreja para o tempo presente — profecia, línguas, ciência — um dia deixará de ser necessário. Não porque sejam falsos ou menores, mas porque servem a um propósito que um dia se cumprirá.

Primeira pergunta: por que dizemos que conhecemos “em parte”?

Resposta: Porque receber dons é, ao mesmo tempo, prova de que ainda somos imperfeitos.

João Calvino ensina: “a intenção de Paulo é mostrar que o fato de recebermos conhecimento e profecia é precisamente uma prova de que somos imperfeitos. Portanto ‘em parte’ significa que não fomos ainda aperfeiçoados. Conhecimento e profecia, portanto, terão lugar em nossas vidas enquanto a imperfeição fizer parte de nossa existência terrena, pois eles nos assessoram até que plenitude nos atinja.” (Comentário à Sagrada Escritura, Exposição de 1Coríntios, 1ª ed. em português, São Paulo, Edições Paracletos, 1996, p. 402)

Guarde isto: o dom não é troféu de quem já chegou. É muleta de quem ainda caminha. Ninguém deveria se orgulhar de precisar de muleta — deveria, isso sim, reconhecer nela um sinal da própria fraqueza.

Segunda pergunta: quando cessarão os dons?

Resposta: Quando vier o que é perfeito — e isso acontece em dois tempos, não em um só.

Calvino explica: “Quando a perfeição chegar, tudo o quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido. Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa com a morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; porém, ela não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final.” (op. cit., p. 403)

Guarde isto: a perfeição começa na morte de cada crente e só se completa na ressurreição, no juízo final. Entre a cruz e aquele dia, a Igreja inteira — em qualquer século — vive “em parte”. Não há um marco histórico no meio do caminho, como o fim da era apostólica, que apague essa condição antes da hora.

Terceira pergunta: para que servem os dons enquanto vivemos?

Resposta: Servem para nos ajudar a caminhar até o alvo — não para nos entreter nem para nos exibir.

Calvino resume assim: “o benefício oriundo dos dons só é eficaz enquanto estivermos nos movendo para o alvo” (op. cit., p. 402). E acrescenta: “Paulo poderia ter posto nestes termos: ‘Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.'” (op. cit., p. 403)

Guarde isto: dom é equipamento de viagem, não decoração de chegada. Ninguém usa capa de chuva dentro de casa. Enquanto a Igreja peregrina nesta terra, entre a queda e a glória, ela precisa de profecia, de línguas e de ciência como o viajante precisa de provisão. Só a morte — e, plenamente, a ressurreição — tornam essas provisões dispensáveis.

Quarta pergunta: por que dois erros contrários caminham juntos nesse assunto?

Resposta: Porque os dois insistem em fechar antecipadamente o que Deus só fecha na ressurreição.

O cessacionismo ensina que os dons já cessaram, geralmente ligando o fim deles ao fechamento do cânon. Isso é liberalismo teológico disfarçado de zelo pela Escritura: troca a promessa que Paulo dá — perfeição na morte e na ressurreição — por um marco administrativo, mais confortável para quem já não sabe lidar com o sobrenatural vivo na Igreja de hoje.

O determinismo ensina que tudo — inclusive os dons — se cumpre como engrenagem cega, sem exigir do crente que se mova para o alvo. Isso é paganismo disfarçado de soberania: transforma a Igreja em plateia de um script já escrito, quando o próprio texto diz que os dons “são eficazes enquanto estivermos nos movendo” — isto é, supõem resposta viva, fé em exercício, vocação caminhando.

Guarde isto: um erro fecha o relógio dos dons cedo demais; o outro fecha o relógio da resposta humana desde sempre. Os dois, por caminhos opostos, tiram da Igreja a tensão do “em parte” que Paulo pede que vivamos com paciência e fé.

O que fica no fim de tudo

De todos os dons, um não é bengala nem provisão de viagem: o amor. Ele não serve apenas para chegar ao alvo — ele já é, aqui e agora, uma amostra do próprio alvo. Por isso Paulo pode dizer, sem hesitar, que o amor jamais acaba, enquanto tudo o mais — por mais precioso que seja hoje — um dia será posto de lado, como se põe de lado a bengala de quem finalmente aprendeu a correr.

Aplicação para a igreja: enquanto vivermos, precisaremos dos dons — sem orgulho de tê-los, sem vergonha de precisar deles. E viveremos “em parte” até a morte, plenamente até a ressurreição: nem um dia antes, como quer o cessacionista, nem por mecanismo automático, como quer o determinista. Vivemos pela fé, em amor, até que venha o que é perfeito.


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O milagre de Caná — Como viver de milagres

Novo e-book de Ariovaldo Ramos

Quando o vinho acaba, o melhor ainda pode estar por vir.

Uma leitura pastoral e teológica do primeiro sinal de Jesus — sobre presença, escassez, dignidade, obediência e transformação.

O milagre de Caná · Como viver de milagres

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Acesso digitalCelular, tablet ou computador
Garantia de 7 diasConheça a leitura sem risco

Uma festa ameaçada pela escassez

Caná não é apenas uma história sobre vinho.

É a história de pessoas comuns diante da vergonha — e de uma presença capaz de transformar o fim em recomeço.

Ao percorrer João 2, Ariovaldo Ramos mostra que o primeiro sinal de Jesus não acontece num palácio, num templo ou diante de uma multidão. Acontece numa festa simples, quando os recursos acabam e a dignidade de uma família está em risco.

“O melhor vinho ainda está por vir.”

O livro convida você a reconhecer a ação de Deus no cotidiano: nas talhas comuns, nos gestos de obediência e nos momentos em que aquilo que sustentava a festa parece ter chegado ao fim.

Uma jornada por João 2

O que você encontrará nesta leitura

A presença de Jesus na vida comum

Por que o primeiro sinal acontece numa celebração de gente simples — e o que isso revela sobre o coração de Deus.

A fé que confia antes de entender

O papel de Maria e dos serventes numa narrativa em que a confiança vem antes da explicação.

Talhas antigas, possibilidade nova

Como aquilo que parecia vazio, religioso ou sem utilidade pode se tornar parte de uma transformação.

Graça, misericórdia e dignidade

Um milagre silencioso que preserva pessoas da vergonha e devolve à festa a possibilidade de continuar.

O que você recebe

Uma leitura para compreender. Um devocional para praticar.

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Doze capítulos em PDF, com leitura pastoral e teológica do primeiro sinal de Jesus.

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Sobre o autor

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Ariovaldo Ramos

Pensador evangélico brasileiro com décadas de experiência no ministério pastoral, em missões urbanas e no ensino teológico. Autor e conferencista, tornou-se conhecido por comunicar temas bíblicos com profundidade, clareza e atenção aos desafios humanos e sociais do nosso tempo.

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A festa não acabou

Leve esta jornada com você.

Descubra como Caná fala aos momentos em que os recursos acabam, a esperança é testada e uma nova possibilidade começa a nascer.

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A mesa do Reino

O Evangelho nos coloca diante de uma pergunta que queima o coração:

 

Que mesa nós estamos servindo? A mesa do sistema ou o banquete do Reino?

 

E, junto com essa pergunta, outra:

 

O que o Espírito Santo – Ruach HaKodesh, a Mãe divina da Trindade – quer fazer em nós e através de nós?

 

 

 

Jesus nos fala em Lucas 14:

 

“Quando você der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos.”

 

O cenário é um banquete na casa de um dos principais fariseus. Não é churrasco simples; é mesa de gente importante, mesa de status, mesa de poder. Gente disputando lugar, medindo quem é mais honrado, quem vale mais.

É a mesa do sistema.

 

E as nossas mesas, se a gente olhar com sinceridade, muitas vezes são um espelho dessa lógica:

 

  • convidamos quem pode retribuir;
  • sentamos com quem pode abrir portas;
  • nos aproximamos de quem “agrega” para a nossa imagem.

 

 

É o contrato social da reciprocidade: “eu te convido, você me convida; eu te ajudo, você me ajuda”. É assim que o mundo funciona – da política ao condomínio.

 

Só que esse sistema de reciprocidade não é neutro;

ele perpetua desigualdades, alimenta privilégios, mantém gente de fora.

No Brasil, ele tem cor, CEP e condição econômica (poder de compra):

é a lógica que sustenta o racismo estrutural, que vitima nossa população negra e pobre;

é a lógica que naturaliza chacinas nas periferias, que aceita como normal jovens negros tombando pela violência do Estado, especialmente nas favelas, nos becos, nas quebradas.

 

Esse sistema diz, na prática:

 

“Quem não tem como devolver, não entra.

Quem não tem como retribuir, não senta.

Se não rende lucro, não tem lugar.”

 

Esse é o banquete do sistema.

 

E é justamente no meio desse banquete que Jesus planta uma dinamite espiritual.

Ele olha para o anfitrião e diz:

 

“Quando deres um banquete, não chames teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos…

mas convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos.”

 

Jesus não está proibindo churrasco em família.

Ele está atacando a lógica da exclusividade, a lógica da mesa que só acolhe quem pode retribuir.

Jesus está dizendo:

 

“Se você quiser andar comigo, não pode organizar a vida pela lógica do sistema.

A sua mesa tem de ser outra. O seu banquete tem de ser outro.

O seu banquete tem de ser o banquete do Reino de Deus.”

 

 

 

E aí entra a pergunta:

 

Mas quem nos capacita para viver essa aparente loucura?

Quem nos dá condições de romper com esse sistema tão entranhado na nossa carne, na nossa cultura, na nossa história?

 

A resposta é: Ruach HaKodesh, o Espírito Santo.

 

Em hebraico, Ruach é um substantivo feminino.

A Tradição bíblica nos permite contemplar o Espírito Santo como a maternidade da Trindade, a Mãe divina.

 

Foi essa Mãe que pairava sobre as águas na criação, envolvendo o planeta e inoculando vida.

É essa Mãe que nos gera de novo a partir da fé que nos presenteia.

É essa Mãe que nos consola quando não temos palavras, que intercede por nós com gemidos inexprimíveis.

 

E depois da ressurreição de Cristo, essa Mãe divina não apenas paira sobre nós:

Ela passa a habitar em nós.

 

Nós, que fomos justificados pelo Trino Deus, nos tornamos templo da Ruach HaKodesh.

A Mãe divina mora dentro de nós.

Ela é a voz materna do Reino da Trindade dentro da nossa consciência, dentro da nossa história, dentro da nossa comunidade.

 

 

 

Então, pergunto de novo:

 

O que a Mãe divina está fazendo EM nós?

 

Ela está nos libertando da lógica doentia do sistema, de dentro para fora.

O sistema diz:

 

“Sirva quem pode te promover.

Aproxime-se de quem pode te levantar na escada social.

Proteja a sua posição e a posição dos seus.”

 

Mas a Ruach HaKodesh sussurra dentro de nós:

 

“Eu te servi primeiro, quando você não tinha nada para me oferecer.

Eu te amei quando você era pobre de espírito, aleijado pelo pecado, coxo no caminhar, cego para a verdade.

Eu te convidei para minha mesa, sabendo que você jamais poderia me recompensar.

Agora, vá e faça o mesmo.

Sirva aos que não podem te retribuir.”

 

Ela nos convence de que status, poder e privilégio racial são lixo.

Nos mostra que, em Cristo, já fomos justificados.

Se Deus nos declarou justos em Cristo, nós não precisamos da aprovação do sistema.

 

Quando o mundo celebra alguém com fortuna de um trilhão de dólares,

A Ruach HaKodesh sussurra:

 

“Isso é lixo.”

 

E muita gente, inclusive cristã, ora para ser igual –

sem perguntar: quanto de exclusão isso custa?

Quantos serão jogados no limbo da miséria

para que uns poucos acumulem tanto?

 

A Mãe divina nos pergunta:

 

“Você quer mesmo participar de um sistema que transforma seres humanos em peça de reposição?

Que substitui vidas como se repusesse mercadoria em prateleira?”

Ela nos liberta dessa ilusão.

 

Mas não é só em nós.

 

O que a Mãe divina quer fazer ATRAVÉS de nós?

 

No Brasil, há muito convivemos com essa realidade de segregação e injustiça, a Ruach HaKodesh chora dentro dessa nossa história.

 

Ela clama por todos os oprimidos.

Ela chora pelos filhos negros assassinados nas operações policiais.

Ela geme com as mães das favelas, das periferias, das quebradas, que enterram seus meninos.

Ela sente a dor das mulheres negras que carregam séculos de desprezo, violência e empobrecimento.

Ela sofre por causa da misoginia, do feminicídio.

 

Porque Ela habita em nós,

o choro dela quer se tornar o nosso choro.

A indignação dela quer se tornar a nossa ação.

 

Ela nos lembra que a misoginia e o racismo estrutural não podem ser tidos como “opinião política”;

é pecado estrutural.

É sistema de morte.

É parte daquele ídolo que Daniel viu no sonho de Nabucodonosor:

uma estátua feita de vários metais, representando os impérios humanos – todos baseados em poder, dominação e exclusão.

 

Mas Daniel viu também uma pedra, lançada por mãos não humanas, que atinge os pés da estátua, derruba toda a estrutura e vai crescendo até encher a terra.

Essa pedra é o Reino de Deus.

É o Reino que vem para triturar o sistema de morte, de misoginia, de racismo, de opressão, de exploração econômica.

 

 

 

E Jesus diz como esse Reino se manifesta na prática:

 

“Ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos.”

 

Na nossa realidade brasileira, quem são esses convidados?

 

  • a população negra e pobre, alvo preferencial da violência policial;
  • as mulheres que criam filhos sozinhas;
  • os imigrantes e refugiados;
  • os dependentes químicos;
  • os ex-presidiários;
  • os injustiçados pelo sistema;
  • todos aqueles que o sistema empurrou para o corredor estreito da marginalidade.

 

 

Esse não é um chamado à caridade distante, do tipo “entrega uma marmita e sai correndo”.

Jesus não diz: “leve comida até eles e volte para o seu conforto.”

Ele diz:

 

“Convida para o banquete.”

 

É mesa.

É relacionamento.

É honra para quem foi desonrado.

É voz para quem foi silenciado.

É comunhão para quem foi isolado.

 

E às vezes a gente ouve isso e pensa:

“Bonito, né? Espiritual. Mas na prática… quem é que aguenta viver isso?”

 

Eu lembro daquela irmã simples, no Rio de Janeiro, que a Ruach HaKodesh moveu para acolher pessoas em situação de rua.

Ela colocou vinte pessoas morando dentro da própria casa.

Era o que cabia no espaço que ela tinha.

 

Quando alguns pastores se reuniram com ela, em vez de perguntar “Como podemos ajudar?”, muitos perguntaram:

 

“A senhora não tem medo?

A senhora pensou na segurança da sua família?”

 

E ela respondia:

 

“A gente ora.

Ora às seis, às nove, ao meio-dia, às três, às seis da tarde, às nove da noite…

e o Senhor tem sustentado.”

 

Alguém comentou:

 

“Mas tem gente que é folgada, que se aproveita…”

 

E ela respondeu:

 

“Quando percebo isso, eu começo o turno da meia-noite.”

 

Não é romantismo.

É banquete do Reino acontecendo numa casa humilde.

É a Mãe divina capacitando alguém a fazer o que, humanamente, parece impossível.

 

 

 

Esse é o ponto:

sozinho, ninguém vive o banquete do Reino.

Mas a Ruach HaKodesh habita em nós.

Ela é a Mãe em nosso interior, que diz:

 

“Lembra? A Trindade convidou você quando você era pobre de espírito, aleijado pelo pecado, coxo, cego.

A sua salvação é um dom irrecompensável.

Você nunca poderá pagar o que recebeu.

Então, imita o ETERNO:

dá, doa, acolhe, sem esperar retribuição.”

 

Essa é a economia invertida do céu.

É investir naquilo que a traça não corrói e o ladrão não rouba.

É juntar tesouros no céu, não aqui.

 

Jesus diz:

 

“e serás bem-aventurado,

porque eles não têm com que te recompensar;

mas recompensado te será na ressurreição dos justos.”

 

Ou seja:

 

  • a recompensa não é agora;
  • não são likes, aplausos, elogios, fotinho no Instagram com legenda “servindo a Deus”;
  • a recompensa é escatológica – “na ressurreição dos justos”.

 

 

Quem são os justos?

Não é “o pessoal certinho”.

São os que Deus declarou justos,

porque foram escondidos em Cristo,

justificados por divina graça.

 

A cruz, diz Pedro, é manifestação de um sacrifício decidido antes da fundação do mundo.

O sacrifício começa quando o Filho abre mão das prerrogativas divinas:

 

  • o Eterno se deixa circunscrever ao tempo;
  • o Infinito assume limites;
  • o Imortal se oferece à morte;
  • o Onisciente escolhe dizer: “Não sei” – e ora de verdade, chora de verdade, sofre de verdade.

 

Quando chegamos ao Calvário, estamos vendo o ápice de um sacrifício que começou muito antes.

E Paulo nos diz:

 

“Tenham em vocês o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus…”

 

O que é esse “mesmo sentimento”?

É a disposição de abrir mão de privilégios para servir.

Isso é banquete do Reino.

 

Então, a pergunta volta com força:

 

Que mesa nós vamos servir?

A mesa exclusiva do fariseu ou a mesa inclusiva do Reino?

 

Vamos continuar lutando para que o Brasil seja “uma grande potência”, não importa o custo?

Ou vamos lutar para que o Brasil seja um farol de justiça,

um povo que aprendeu a lição de Paulo:

 

“Quem colheu muito não acumule, para que quem colheu pouco não passe necessidade.”

 

O mundo não precisa de mais potências;

o mundo precisa de justiça.

 

Irmãs e irmãos,

nós celebramos a Ceia do Senhor como uma prévia do grande banquete do Cordeiro,

onde gente de toda tribo, língua, povo e nação se assentará à mesa,

e a justiça de Deus cobrirá a terra como as águas cobrem o mar.

 

Mas preste atenção:

essa mesa não é a mesa de quem é servido;

é a mesa de quem serve.

 

Se não estivermos dispostos a seguir Jesus nessa economia invertida,

nessa lógica da doação sem retorno,

então não estamos entendendo a mesa dele.

 

Por isso, hoje, diante desse texto e dessa realidade brasileira, eu quero orar com você:

 

Pai de amor e de justiça,

perdoa-nos quando as nossas mesas se pareceram mais com a mesa do fariseu do que com o banquete do Reino.

Perdoa nosso exclusivismo, nosso medo, nossa busca por relevância, por poder, por segurança.

Quebra em nós a lógica da reciprocidade que exclui.

Ruach HaKodesh, Mãe divina, plenifica-nos.

Liberta-nos do fascínio pelo status, pelo privilégio racial, pelo poder que mata.

Transforma o teu choro em nossa ação.

Dá-nos coragem para abrir a vida, a casa, a comunidade para os excluídos – negros, pobres, imigrantes, mães solo, dependentes químicos, ex-presidiários, injustiçados.

Que a esperança da ressurreição nos liberte do medo de perder privilégios e segurança.

Faz de nós sinais vivos de que o Reino de Deus já está entre nós.

Em nome de Jesus, o Cristo, o anfitrião que se fez servo, Amém.

 

E agora, irmãos e irmãs,

à luz desse chamado, nós separamos o pão do seu uso comum,

para que ele tipifique o corpo de Cristo –

corpo moído desde o momento em que Ele abriu mão da sua glória por nós.

 

Separamos também o fruto da vide do seu uso comum,

para que ele tipifique o sangue da nova aliança –

conhecido antes da fundação do mundo e manifestado na história por amor de nós.

 

Todos aqueles e aquelas que desejam aliar-se a Cristo

na construção de uma nova mesa –

uma mesa que rompe com a lógica do sistema

e encarna o banquete do Reino –

são convidados a participar:

a comer do pão e a beber do cálice.

 

Que ao nos aproximarmos desta mesa,

a Ruach HaKodesh nos lembre:

 

“Vocês foram servidos quando nada tinham a oferecer.

Agora, vão e sirvam, sem esperar recompensa aqui.

A verdadeira recompensa está guardada

na economia invertida do céu,

na ressurreição dos justos.”

 

Amém. Sejamos todos bem-vindos à mesa do Senhor.

 

Ariovaldo Ramos